Processo
Criando cenas
Um dos maiores desafios para qualquer desenhista é criar uma cena completa. Desenhar um objeto isolado costuma ser relativamente simples. O verdadeiro desafio surge quando precisamos combinar vários objetos, personagens, ambientes, poses, enquadramentos e relações espaciais em uma única imagem.
A boa notícia é que essa tarefa pode ser muito mais simples do que parece.
Ao longo de muitos anos trabalhando com animação e Computação Gráfica (CG), percebi que cenas complexas se tornam muito mais fáceis de construir quando seguimos um processo lógico e organizado. Em vez de tentar resolver todos os problemas ao mesmo tempo, dividimos o trabalho em etapas, onde cada decisão serve de base para a próxima.
Pense novamente no artista de Stop-motion.
Antes de capturar uma única imagem, ele precisa construir todos os objetos da cena, posicioná-los corretamente, criar as poses dos personagens, definir a câmera, escolher o enquadramento e organizar todos os elementos que participarão da narrativa. Nada é deixado ao acaso. Existe uma sequência de construção.
No desenho acontece exatamente a mesma coisa.
Uma cena não nasce pronta. Ela é construída gradualmente, através de uma série de decisões relacionadas ao espaço, aos objetos, à composição, à hierarquia visual, à câmera e à narrativa.
Por essa razão, a partir deste ponto passaremos a utilizar um processo de construção de cenas. O objetivo desse processo não é limitar a criatividade, mas organizar o raciocínio. Quando existe uma sequência clara de trabalho, fica muito mais fácil transformar uma ideia, uma memória ou uma imaginação em uma imagem compreensível.
Ao seguir esse método, você deixará de pensar apenas em linhas e passará a pensar como um diretor de cena, organizando objetos, controlando o espaço e construindo imagens de forma consciente






7.1. Roteiro
Antes de iniciar qualquer desenho, ilustração ou cena, é importante saber exatamente o que se deseja comunicar.
Todo desenho nasce primeiro como uma ideia. Antes de existir no papel, ele existe na imaginação. Quanto mais clara for essa ideia, mais fácil será transformá-la em imagem.
Em trabalhos profissionais, essa ideia muitas vezes já vem definida por um cliente, diretor de arte ou roteirista. Porém, quando a criação parte do próprio artista, é recomendável registrar essa ideia por escrito antes de começar a desenhar.
Chamamos esse registro de roteiro.
O roteiro funciona como um mapa. Ele ajuda a manter o foco, organizar o raciocínio e evitar que o desenhista se perca durante a execução do trabalho.
Esse processo é muito comum em diversas áreas criativas. Filmes, animações, jogos, histórias em quadrinhos e campanhas publicitárias normalmente começam como texto antes de se transformarem em imagens.
Por isso, desenvolva o hábito de escrever suas ideias. Muitas vezes é mais fácil descrever aquilo que deseja criar do que tentar desenhá-lo imediatamente.


7.2. Fazendo perguntas
O desenho é uma forma de transformar imaginação em imagem.
Por essa razão, antes de desenhar, precisamos construir mentalmente aquilo que pretendemos representar.
Uma maneira simples de fazer isso é através de perguntas.
As perguntas ajudam a organizar o pensamento e direcionar a imaginação para a construção da cena.
Independentemente do tipo de desenho que deseja criar, procure responder às seguintes questões:
1. O que vou desenhar?
Quais objetos fazem parte da cena?
Personagens, veículos, construções, paisagens, móveis ou qualquer outro elemento que participará da composição.
2. Qual será o formato?
Qual será o espaço disponível para a imagem?
Será uma página de HQ, uma ilustração, uma capa de livro, uma tela de computador ou uma folha de papel?
3. Onde está o observador?
Qual é o ponto de vista da cena?
O observador está em pé, sentado, distante, próximo, acima ou abaixo dos objetos?
Observe que essas perguntas correspondem exatamente aos três elementos fundamentais do desenho:
Objeto, Espaço e Observador.
Responder a essas questões antes de desenhar aumenta significativamente a clareza do processo criativo.


7.3. Criando respostas
Agora chega o momento mais importante.
Feche os olhos e utilize sua imaginação.
O objetivo é responder às perguntas anteriores da maneira mais clara possível. Quanto mais específicas forem as respostas, mais fácil será construir a cena.
Muitos desenhistas encontram dificuldade exatamente nesta etapa. Não porque lhes falte habilidade técnica, mas porque criar exige tomar decisões.
Copiar uma imagem pronta é relativamente simples. Criar uma imagem exige escolher.
É preciso decidir o que existirá na cena, onde estará cada objeto, qual será o enquadramento e qual será a experiência do observador.
Essa capacidade de tomar decisões é uma das características que diferenciam um criador de um simples copiador.
Exemplo:
O que vou desenhar?
Um carro em uma rua.
Qual será o formato?
Um quadro quadrado de história em quadrinhos.
Onde está o observador?
Em pé na calçada observando um carro vindo em sua direção.
Agora já possuímos informações suficientes para iniciar a construção da cena.
7.4. Prática
Com as respostas definidas, podemos iniciar o processo de criação.
"Três Vistas"
Primeiro utilizamos a ferramenta Três Vistas para estudar os objetos envolvidos na cena.
Nesse momento investigamos suas formas, proporções, volumes e características principais. O objetivo é compreender aquilo que será desenhado.


“Reserva de espaço”
Em seguida utilizamos a Reserva de Espaço.
Aqui definimos aproximadamente onde os objetos serão posicionados dentro do formato, determinando tamanho, importância e relações espaciais.
Depois disso, basta acrescentar detalhes, fazer os ajustes finais e concluir o desenho.


“Relações do objeto”
Com a composição definida, passamos a construir os objetos individualmente.
Agora entram em ação conceitos como orientação, eixos, linha média, pivôs, arcos, hierarquia e raio X.
É nessa etapa que a cena começa a ganhar estrutura.


Distâncias e Perspectiva
Por fim, avaliamos as relações de distância entre observador e objetos.
Essa análise permite determinar o grau de distorção necessário, a utilização de pontos de fuga e a posição da linha do horizonte.


7.5. Conclusão
O desenho é uma ferramenta de comunicação.
Por meio dele, somos capazes de transmitir ideias, emoções, histórias, conceitos e informações utilizando imagens.
Toda imagem criada por um desenhista é uma mensagem codificada visualmente para ser interpretada por um observador.
Quanto melhor essa codificação for realizada, mais eficiente será a comunicação.
Existe um antigo ditado que afirma que uma imagem vale mais do que mil palavras. Isso acontece porque uma única imagem pode concentrar uma enorme quantidade de informação em um único instante.
Entretanto, construir imagens eficientes não é uma tarefa simples. Exige conhecimento, prática e compreensão dos princípios que sustentam o desenho.
Os conceitos apresentados neste livro/curso têm justamente esse objetivo: fornecer uma estrutura sólida para que você possa compreender o desenho como um processo lógico de construção e comunicação.
Se algum dos conceitos ainda não estiver totalmente claro, volte, releia e pratique novamente. Os fundamentos apresentados aqui são a base sobre a qual todas as habilidades futuras serão construídas.
Lembre-se da visão que adotamos no início desta jornada.
O desenhista é como um artista de Stop-motion.
Ele constrói objetos, organiza cenas, posiciona câmeras e cria mundos.
Quanto melhor compreender esse processo, maior será sua liberdade para transformar ideias em imagens e imaginação em realidade.


