Rascunho

Assim como um artesão constrói cada peça de uma maquete antes de finalizar o conjunto, o desenhista também precisa construir cuidadosamente todos os elementos que compõem sua imagem. Para isso, utilizamos figuras 3D simplificadas como cubos, cilindros e esferas. Essas estruturas funcionam como a fundação sobre a qual o desenho será desenvolvido.

O rascunho é a etapa de construção. É nele que definimos proporções, volumes, posições e relações espaciais antes de nos preocuparmos com detalhes. Somente depois que a estrutura estiver sólida é que devemos avançar para acabamentos, texturas e refinamentos.

Muitos iniciantes cometem o erro de tentar desenhar imagens complexas logo no início, sem antes dominar formas simples. Desejam desenhar personagens, veículos ou cenas elaboradas sem conseguir construir com segurança um cubo, um cilindro ou uma esfera. No entanto, assim como ninguém constrói uma casa começando pelo telhado, também não é possível construir desenhos complexos sem dominar seus fundamentos.

O desenvolvimento do desenho é gradual. Tenha paciência e permita que sua habilidade evolua passo a passo. Comece observando e desenhando objetos simples do cotidiano: utensílios de cozinha, caixas, móveis, livros ou qualquer objeto presente em sua casa. À medida que sua compreensão do espaço, das formas e das proporções aumentar, objetos mais complexos se tornarão naturalmente mais fáceis de construir.

Aprenda a valorizar o poder das formas simplificadas. Quase todos os objetos podem ser reduzidos a combinações de prismas, cilindros, esferas e outras formas básicas. Quanto melhor você compreender essas estruturas, maior será sua capacidade de desenhar qualquer coisa.

Desenvolva também o hábito de observar o mundo procurando suas formas fundamentais. Treine sua mente para identificar quais prismas, volumes e estruturas estão escondidos dentro dos objetos que deseja desenhar. Esse é um dos segredos que transforma o desenho de uma atividade de cópia em uma atividade de construção consciente.

4.1 Linhas Guia

Uso de linhas retas, linhas curvas e prismas como guia - Traço

Assim como se usa pautas num caderno para direcionar a escrita, o rascunho serve para direcionar a criação das formas no desenho.

“Wireframe”

Quando a construção do desenho está concluída e todas as formas, proporções, volumes e relações espaciais já foram definidas, chegamos ao que chamarei de wireframe.

O termo vem dos softwares de modelagem 3D, onde os objetos são inicialmente representados por uma estrutura de linhas, sem materiais, texturas ou pintura. Esse aramado permite visualizar claramente a construção do objeto, revelando sua forma, sua estrutura e a maneira como ocupa o espaço.

No desenho, o wireframe desempenha uma função semelhante. Ele representa a etapa em que a construção está pronta, mas ainda não recebeu acabamento. Todas as decisões estruturais já foram tomadas. O objeto já existe, já possui forma e volume, faltando apenas a etapa de finalização.

No meio artístico, essa etapa também é frequentemente chamada de lineart. Independentemente do nome utilizado, o conceito permanece o mesmo: trata-se da estrutura visual que sustenta todo o desenho e que servirá de base para todas as etapas posteriores de acabamento e finalização.

4.2 Figura 3D

É uma figura geométrica tridimensional formada por vértices, arestas, planos e linhas.

No nosso aprendizado usaremos essas figuras como base estrutural para rascunhar objetos.

Adotaremos, para efeito de simplificação, que uma figura 3D é o mesmo que um objeto na sua forma mais simplificada.


Ao desenhar usando essas figuras não quer dizer que devamos fazê-lo sempre. As figuras servem para auxiliar na construção das formas tridimensionais que formam os objetos. Com o passar do tempo e a prática constante, devemos apenas imaginá-las, não sendo necessário desenhá-las todas as vezes, mas somente quando necessário.

Figuras básicas

Usaremos três figuras 3D básicas a partir das quais iremos construir qualquer outra figura, apenas modificando-as. Elas são: Cubo, Cilindro e Esfera.

Construção da esfera

A esfera é a figura 3D que exige maior atenção. Como possui apenas superfícies curvas, pode ser facilmente confundida com um simples círculo. Para construí-la, desenhe inicialmente um círculo e localize seu centro. Em seguida, represente sua orientação através de linhas-guia sobre sua superfície, indicando a direção de seus eixos principais, da mesma forma que os meridianos e paralelos representam a orientação de um globo terrestre. Essas linhas não representam detalhes da esfera, mas sua posição e orientação no espaço, tornando possível manipulá-la e utilizá-la na construção de qualquer objeto orgânico.

4.3 Construção

Construir figuras 3D é uma forma muito fácil de desenhar de maneira metódica e eficiente. É o alicerce onde os desenhos são construídos, por isso aprenda com muita dedicação e saiba fazer de maneira automática e precisa. É um dos segredos dos bons desenhistas.

Para construir boas figuras 3D precisamos ter um traço firme e profissional. Por esta razão, vamos começar a treinar o nosso traço.

Exercício para dominar o traço… e treinar o cérebro!


Muitos desenhistas ignoram este exercício por pensar que é algo desnecessário e que não precisam dele. Pensam que serve apenas para a obtenção de um traço firme e limpo. Sim, é para isso também, mas vai muito além.

Como o cérebro funciona

O cérebro humano trabalha fazendo comparações entre informações. Por esta razão, este exercício é muito importante pois desenvolve a capacidade de comparar e medir as formas e espaços do desenho.


O exercício

Treine preenchendo folhas de papel até sentir-se seguro na construção de linhas retas e curvas, no controle da mão e no controle dos espaços e tamanhos das formas desenhadas.

Ponto de partida

Todo desenho precisa de um ponto de partida.

Antes de construir um objeto complexo, é necessário criar uma primeira referência no espaço. Essa referência pode ser uma simples linha reta indicando a primeira dimensão do objeto.

A partir dessa linha, desenhe uma segunda direção para definir um plano. Em seguida, acrescente a terceira dimensão para construir uma figura 3D. Esse é o princípio utilizado para construir qualquer objeto tridimensional.

Mais importante do que a própria linha é a referência que ela cria. A partir dela, torna-se possível comparar direções, proporções e distâncias, organizando toda a construção do desenho.

O mesmo princípio vale para cenas completas. Sempre procure começar pelo elemento cuja posição você conhece melhor. Esse primeiro objeto passa a funcionar como uma referência espacial para todos os demais, facilitando o posicionamento, a comparação e a construção de toda a composição.

Nunca comece pensando em detalhes. Comece criando uma referência.

Depois, deixe que o restante do desenho cresça naturalmente a partir dela.

Assim como uma árvore nasce de uma única semente, qualquer desenho, por mais complexo que seja, pode nascer de uma única linha.

Construção do cubo

O cubo é a figura 3D mais simples de construir e será nosso ponto de partida. Comece desenhando uma de suas faces, formando um plano quadrado ou retangular. Em seguida, prolongue suas arestas na direção da profundidade e feche as demais faces, formando uma caixa. Por possuir apenas linhas retas e planos bem definidos, o cubo é ideal para desenvolver a percepção espacial e compreender a construção tridimensional.

Construção do cilindro

O cilindro é construído seguindo o mesmo princípio do cubo. A diferença é que, em vez de iniciar com uma face de linhas retas, começamos por uma base elíptica (arredondada). Depois, prolongamos suas laterais na direção da profundidade e acrescentamos a face oposta, formando o volume. O cilindro é a base para a construção de grande parte dos objetos alongados e orgânicos. Construir um cilindro é como desenhar um cubo, a diferença é que, ao invés de fazer um plano retangular, faz-se um plano arredondado; depois, é só fazer o alongamento e acrescentar o topo.

Características importantes a se observar nas figuras com formas arredondadas


Elipses


Cilindros e esferas possuem superfícies curvas. Por isso, uma das habilidades mais importantes para desenhá-los corretamente é aprender a construir elipses.

Ao desenhar cilindros, procure sempre completar mentalmente, ou até mesmo rascunhar, a elipse inteira, mesmo que parte dela fique escondida pela superfície do objeto. Esse procedimento ajuda a manter a continuidade da forma e evita deformações que comprometem a sensação de volume.

Da mesma forma, na esfera, desenhar as linhas de orientação completas facilita a compreensão da sua estrutura e da direção para a qual ela está apontando.

Limites


Além das elipses, existe outra característica importante presente nas formas arredondadas. Eu a denominei Limites.

Os limites representam a região da superfície onde a forma deixa de ser visível para o observador. Conforme o objeto gira, esse limite também muda de posição, revelando sua orientação no espaço.

Limites na esfera

Quando observamos uma esfera exatamente de frente, sua linha média aparece como uma linha reta. À medida que a esfera gira, essa linha aparenta curvar-se progressivamente até aproximar-se do contorno visível da esfera.

Essa transformação é consequência da mudança de orientação da superfície e constitui uma importante referência para indicar a direção para a qual a esfera está voltada.

Limites no cilindro

O mesmo princípio ocorre com o cilindro.

Quando o eixo do cilindro está paralelo ao plano do papel, seus topos aparecem praticamente retos. À medida que o cilindro gira e uma de suas extremidades passa a apontar para o observador, esses topos tornam-se elipses cada vez mais abertas.

Essa alteração da elipse revela imediatamente a orientação do cilindro e ajuda o desenhista a controlar sua construção tridimensional.

Como essas característi cas ajudam no desenho?

Tanto as elipses quanto os limites funcionam como indicadores da orientação dos objetos.

Sempre que desenhar cilindros, esferas ou qualquer objeto de superfície curva, observe essas linhas cuidadosamente. Elas mostram para onde o objeto está apontando, ajudam a preservar sua volumetria e tornam muito mais fácil construir formas tridimensionais de maneira consistente.

Depois de compreender esse princípio, você passará a enxergar cilindros e esferas não apenas como formas arredondadas, mas como objetos orientados no espaço. Esse é um passo importante para desenhar qualquer estrutura orgânica com segurança e precisão.

4.4 Deformação

Depois de aprender a construir as três figuras básicas, o próximo passo é aprender a deformá-las.

A deformação consiste em modificar suas proporções, inclinar, alongar, achatar, curvar, torcer ou afunilar suas formas, preservando sua estrutura tridimensional.

Observe a ilustração. Um cubo pode transformar-se em uma figura inclinada, um tronco de pirâmide ou qualquer outra forma de faces planas. Um cilindro pode ser encurtado, alongado ou curvado, dando origem a inúmeras formas orgânicas. Da mesma maneira, uma esfera pode ser comprimida, esticada ou deformada para criar volumes completamente diferentes.

Essas transformações ampliam enormemente o número de formas que podem ser construídas a partir das três figuras básicas.

Quanto mais você praticar a deformação, maior será sua capacidade de imaginar e construir novos objetos. Com o tempo, deixará de enxergar apenas cubos, cilindros e esferas e passará a perceber infinitas possibilidades surgindo a partir deles.

Use sua imaginação. Todo objeto complexo pode ser entendido como uma figura básica que foi deformada.

4.5 Combinação

Outra maneira de criar objetos é combinar as figuras 3D.

Enquanto a deformação modifica uma única figura, a combinação une duas ou mais figuras para formar estruturas maiores e mais complexas.

Observe a ilustração. Um veículo pode ser construído pela combinação de diversas figuras. Um personagem pode ser representado inicialmente por esferas, cubos e cilindros. Objetos do cotidiano, máquinas, animais e construções também podem ser simplificados dessa maneira.

Esse processo facilita muito a construção dos desenhos, pois permite resolver um objeto complexo dividindo-o em formas simples.

Sempre que encontrar dificuldade para desenhar alguma coisa, procure identificar quais figuras básicas formam sua estrutura. Em seguida, desenhe cada um deles separadamente, ajuste suas proporções, deforme-os quando necessário e, por fim, combine-os até obter o objeto desejado.

Esse é um dos princípios mais importantes deste método.

Primeiro construímos as figuras. Depois as deformamos.

Por fim, combinamos essas formas para criar qualquer objeto que exista ou que possa ser imaginado.

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